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MUNDO

13/04/2017

Além de esposa traída: nova biografia de D. Leopoldina revela histórias pouco conhecidas

O lançamento da publicação coincide com os 200 anos da chegada da arquiduquesa ao Brasil

A primeira vez que a arquiduquesa Leopoldina da Áustria teve alguma familiaridade com uma nação chamada Brasil foi em julho de 1815, na cidade termal alemã de Baden-Baden. Ela ainda nem era a escolhida para se casar com o então príncipe dom Pedro I, mas já teve a primeira impressão daquele país que seria a sua nova casa. “Na primeira tarde, fomos ver a mina Krainer; a irmã nos deu a alegria de mandar buscar uma família de negros que mora defronte a ela e pertence à criadagem do emissário português, acho-os muito amáveis e espirituosos e me dei muito bem com eles; nasceram no Brasil e falam sua língua materna, que soa esquisita”, descreve em carta ao pai, o imperador Francisco I. "Esse foi o seu primeiro contato com os brasileiros. Se aquele episódio não tivesse chamado sua atenção, ela nem ia escrever ao pai. Um ano depois, Leopoldina estaria se preparando para a sua nova terra", relata o escritor e pesquisador Paulo Rezzutti, que acaba de lançar D. Leopoldina – A história não contada: a mulher que arquitetou a Independência do Brasil.

A biografia revela facetas desconhecidas daquela que se tornou famosa como a esposa traída de Pedro I. Entre as novidades, a obra conta que, desde criança, a arquiduquesa, que pertencia a uma das casas reais mais importantes do mundo, a Áustria, nutria um forte desejo de conhecer a América. Uma nobre europeia, a baronesa de Montet, nas suas memórias, chegou a afirmar: "Ela era muito instruída e amava apaixonadamente a botânica; a ideia de um mundo novo, de uma natureza tão diferente à da Europa, sorria-lhe ao extremo; chegamos a saber que há muitos anos ela sonhava conhecer a América".

Rezzuti mostra a importância da princesa e seu papel fundamental em questões nacionais, incluindo a Independência. Para tal, utilizou documentos e imagens inéditas, como o diário da condessa Maria Ana von Kühnburg (1782-1824), nobre austríaca que acompanhou Leopoldina na viagem de Viena ao Rio de Janeiro; desenhos e pinturas da Hispanic Society of America, de Nova York; e imagens do arquivo de Franz Josephn Frühbeck (artista amador e membro da comitiva austríaca), hoje pertencentes ao Instituto Moreira Salles. "Quando fiz meu primeiro livro sobre a marquesa de Santos, uma coisa foi puxando a outra. Pesquisei muitas coisas e, quando vi, tinha um material vasto para falar sobre dom Pedro I e, agora, Leopoldina. Uma das coisas curiosas é que rodei a Europa atrás desse diário da condessa e fui descobrir que ele estava bem aqui, em São Paulo, no Instituto Hercule Florence", conta.

200 ANOS 
O lançamento da publicação coincide com um momento importante da nossa história, os 200 anos da chegada de Leopoldina ao Brasil. A princesa não se conteve quando avistou o Rio de Janeiro: "Nem pena nem pincel podem descrever a primeira impressão que o paradisíaco Brasil causa a qualquer estrangeiro (…), na entrada da baía há três belos fortes, além de vários grupos de ilhas, ao longe vislumbram-se altíssimas montanhas cobertas de palmeiras e muitas outras espécies de árvores", descreveu.

"Ela realmente amou o Brasil e dizia que a única coisa que a incomodava era o calor infernal e os mosquitos. Leopoldina abraçou nossa terra como se fosse sua. Para mostrar que estava abrindo mão de tudo e que queria realmente se tornar a princesa do Brasil e de Portugal, ela adotou o Maria em seu nome, já que as cunhadas todas tinham essa denominação. Costumo brincar que o Dia do Fico dela foi antes de dom Pedro. Nesse período, Leopoldina estava mais decidida pelo Brasil e pelos brasileiros do que o próprio marido", afirma Rezzuti, autor de Titília e o Demonão: cartas inéditas de d. Pedro I à marquesa de Santos, entre outros .

Extremamente culta e com ótima formação, a mãe do futuro imperador Pedro II foi figura política importantíssima para o Brasil e se tornou uma das articuladoras do movimento pela permanência de dom Pedro no país. Mais do que isso, revelou-se uma estrategista do processo de Independência, fato que surpreendeu o escritor. "Ela acabou usando, no bom sentido, os homens. Tanto dom Pedro quanto José Bonifácio (naturalista, estadista e poeta paulista conhecido como o Patriarca da Independência). Leopoldina não se expõe totalmente na política porque ela sabe que ali é um lugar masculino. Mas consegue o que quer justamente através dos homens", analisa.

O pesquisador acrescenta que, apesar dos problemas na intimidade – já que Pedro I era conhecido por suas amantes –, ele reconhecia a importância da mulher e ouviu sua opinião em várias ocasiões. "Ela tinha um pensamento político superior ao dele e era mais preparada. E dom Pedro sabia disso. A falta da esposa – ela morreu antes dele, em 1826, aos 29 anos – fez ele tomar decisões nada acertadas que precipitaram sua saída do poder quatro anos após a morte de Leopoldina. Ele confiava tanto na princesa que a colocou como regente algumas vezes durante sua ausência", ressalta.

Por isso, Leopoldina é considerada a primeira mulher a governar o Brasil. Era ela quem estava no poder no Rio de Janeiro quando dom Pedro proclamou a Independência às margens do Rio Ipiranga, em São Paulo, e também quando acabou falecendo, já que o marido se encontrava no Rio Grande do Sul, aonde fora inspecionar as tropas durante a Guerra da Cisplatina. O imperador chegou a escrever sobre a morte da imperatriz: "Sinto o meu coração quebrar de dor. O mundo não verá mais n’outra idade modelo mais perfeito, nem melhor. D’honra e candura, amor e caridade."

"Acredito que sua história, assim como de outras figuras femininas importantes, ficou desconhecida porque a história é contada por homens. E ainda mais na política, território masculino por excelência. Isso está mudando, ainda bem. O que a gente sabia sobre Leopoldina é que ela era uma santa, melancólica, enquanto a marquesa de Santos era a prostituta. E não era só isso. Leopoldina foi uma estadista, uma esposa que abdicou do sonho de voltar para a Europa em prol de uma causa maior", resume.

Imagem em transformação
Leopoldina já foi representada algumas vezes no cinema e na TV. No filme Independência ou morte (1972), quem deu vida à esposa de dom Pedro foi a atriz Kate Hansen. Na minissérie Marquesa de Santos (1984), da extinta Rede Manchete, quem a interpretou foi Maria Padilha e Érika Evantini a encarnou no seriado O quinto dos infernos (2002), na Globo. A princesa austríaca está de volta à telinha na pele de Letícia Colin, na novela das 18h, Novo mundo. Desde outubro, a atriz tem tido uma preparação digna da realeza, com aulas de história, maneiras e costumes da época, piano, alemão, montaria,  bilhar – que era um dos seus hobbies favoritos – e até um treinamento com armas, pois Leopoldina adorava caçar.

Em entrevista ao Estado de Minas, Letícia revela que a imagem que fazia de sua personagem era de uma figura coadjuvante e que se resumia à esposa de dom Pedro I. "Depois, fui descobrir que ela teve participação muito ativa e até determinante no processo de independência do Brasil. O relacionamento estava extremamente desgastado e tenso com as cortes portuguesas e a diplomacia e formação política dela ajudaram muito nesse sentido. O marido reconhecia que Leopoldina tinha um entendimento, uma formação muito mais política do que ele", explica.

Para a artista, o que mais a impressiona na arquiduquesa é a dedicação ao casamento, aos filhos e ao Brasil. Letícia Colin a considera praticamente uma mártir que se entregou e se sacrificou para o bem de uma nação que não era a sua. "São as dores e as delícias de ser princesa. Ela era muito correta, impecável, dedicada e foi fiel o tempo todo a dom Pedro e ao Brasil. É uma lição de vida. Ela era apaixonada pelo nosso país e incentivou a cultura, as artes, as ciências, a fauna e a flora. O Brasil deve muito a Leopoldina. Eu me debrucei mesmo sobre sua trajetória e virei sua fã. Acredito que muita gente vai saber e se interessar pela história dela e do Brasil através da novela".

Fonte: Diário de Pernambuco



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