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MUNDO

07/08/2017

O carioca que se descobriu fotógrafo e poeta em Portugal

Ozias Filho, fotógrafo brasileiro, chegou a Portugal há quase 26 anos. "Quando abro a boca no Brasil, eles dizem: "esse cara fala diferente." E até a minha mãe pede para eu falar devagar. Já são muitos anos"

Saí do Brasil com 38 graus, dentro do avião estavam 22 e quando cheguei ao Porto estavam sete. Rapei um frio", ri-se Ozias Filho quando recorda aquele final de 1991 em que chegou pela primeira vez a Portugal vindo do seu Rio de Janeiro natal. Desiludido com o jornalismo "angustiante" dos tempos da presidência de Collor de Mello e sabendo que com o seu ordenado e o da mulher, uma professora portuguesa, não conseguia viver na Zona Sul, o carioca resolveu mudar de ares. "Foi aqui que me descobri como fotógrafo, de boca cheia. Porque lá fazia poucas coisas. Em Portugal encontrei o meu espaço no jornalismo, na fotografia e na literatura."

Hoje, quase 26 anos depois, o fruto dessa descoberta está na Casa da América Latina, em Lisboa, na exposição Quasinvisível (até 24 de agosto). Às fotografias das formas geométricas do espaço urbano juntam-se as imagens de montras e de sinais de trânsito. As pessoas estão ausentes, apesar de lá estarem. "Eu vejo tudo como um grande cenário sem os atores principais, que somos nós. Mas estamos lá através do olhar do fotógrafo. Eu quero ser o portador das pessoas para essa grande cidade que não vemos. É através dos meus olhos que estão a ver a cidade."

Ozias (nome que significa "fortaleza de Deus") nasceu a 6 de julho de 1962. A primeira máquina fotográfica foi comprada aos 16 anos, com o dinheiro da rescisão do contrato como office boy (estafeta) numa empresa de relógios. Quis estudar Arquitetura e História, mas não teve nota suficiente e acabou por tirar Jornalismo. Foi no Jornal de Gaia que começou por trabalhar em Portugal, duas semanas após chegar ao Porto. "Ozias, leva a máquina e faz uns bonecos", pediam-lhe às vezes no jornal. "Eu detestava isso. Queria fazer fotografia, mas as que eu queria", indicou.

Passaria por outros jornais e publicações até que um dia, ao voltar de um trabalho, viu na Avenida Miguel Bombarda um letreiro da editora brasileira Vozes, que lhe fazia lembrar os anos de formação académica. Certo dia entrou. "Quero trabalhar com vocês." Era outubro de 1998 e o responsável ia para a feira do livro de Frankfurt. Mandou-o telefonar em novembro. Ozias ficaria com o lugar e, sete meses depois, tornava-se ele o responsável.

"A única coisa chata na Vozes era não editar poesia." Era para a poesia que se tinha virado depois de uma certa "saturação" com a fotografia. "Eu devorava aquilo que me cercava, literalmente, e a partir de certa altura deixei de ter prazer em fotografar." Nesse "período de hiato" entre 1996 e 1999 aprendeu a ler poesia. "Eu ficava imenso tempo com o livro como se esperasse que aquela porta se abrisse para eu entrar, como se esperasse ser convidado a entrar no livro." Na sua obra há influência de Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade (na foto), Arthur Rimbaud, Federico García Lorca ou Vinicius de Moraes.

Na primeira feira do livro em que trabalhou para a Vozes comprou 83 livros de poesia durante as pausas: "Até escondi alguns à porta para a minha mulher não se chatear." Através das leituras descobriu-se também poeta, começou a organizar tertúlias, a fazer contactos... "Cheguei a brincar, por esse caminho ainda viro editor." E foi isso que aconteceu, quando fundou em 2005 a Pasárgada e começou a fazer "tráfico poético" entre Brasil e Portugal. O nome da editora é uma homenagem ao poema de Manuel Bandeira: "Vou-me embora pra Pasárgada ./Lá sou amigo do rei./ Lá tenho a mulher que eu quero./ Na cama que escolherei./Vou-me embora pra Pasárgada." É, segundo Ozias, uma editora de "fundo de quintal", com "a periodicidade de quando Deus quer ou quando há dinheiro".

Seria, contudo, através da poesia que iria regressar à fotografia de uma forma "mais serena, menos objetiva", com "uma carga poética". E seria um poeta brasileiro que tinha editado em Portugal que o convidaria para fazer a sua primeira exposição, Ar de Arestas, no Museu de Arte Moderna Murilo Mendes, no Rio de Janeiro, em 2013. Por essa altura já tinha trocado o Porto, onde além do choque do clima tinha sentido o choque civilizacional, por Cascais. Sempre sem esquecer o Brasil. Mesmo que para quem lá ficou ele seja o português. "Quando abro a boca no Brasil, eles dizem: "esse cara fala diferente." E até a minha mãe pede para eu falar devagar. Já são muitos anos."

Fonte: DN.PT



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