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MUNDO

11/04/2018

O concerto-tese de Adriana Calcanhotto foi aprovado com louvor em Lisboa

Depois da residência na Universidade de Coimbra, a cantautora subiu ao palco do Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Adriana evocou Marielle Franco e Vinicius de Moraes, chamando ainda "Super-Homem e Portugal" a Eduardo Lourenço, que estava na plateia

A voz foi-se aclarando ao longo da primeira canção, que se estreava ali mesmo, e onde Adriana Calcanhotto se apresentava cantando: "Chamo-me a Mulher do Pau-Brasil." A cantautora dissera que ao DN que aquele concerto, nesta terça-feira no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, seria um "concerto-tese", resultado da sua residência artística em Coimbra, em que deu aulas na Universidade (e dará até maio). E há que olhar para A Mulher do Pau-Brasil também assim.

Ao mesmo tempo Adriana avisara: "Não quero fazer um espetáculo didático, assustador. A Mulher do Pau-Brasil sou eu e as canções que eu tenho vontade de cantar agora. Simples assim." Simples assim como Esquadros, que arrancou à plateia a primeira ovação num impulso, como quem não consegue evitar sorrir a quem não vê há muito.

Calcanhotto haveria ainda de referir de Esquadros mais à frente, quando falava dos seus alunos do curso "Como Escrever Canções", na Universidade de Coimbra, gracejando ao dizer que não sabe como foi convidada: "Eu faço tudo errado." E então lembrou que os seus produtores disseram que uma música chamada Esquadros nunca pegaria no ouvido das pessoas.

Num cenário preto e vermelho, que se foi modificando e intensificando, como o próprio concerto, Adriana surgiu acompanhada dos músicos Ricardo Dias Gomes, no piano, baixo e voz, e Gabriel Muzak, que tocou guitarra e, com o MPC, deu o primeiro mote aos ombros que se mexiam na plateia ao som da voz de Caetano Veloso entrecortada a introduzir a poderosa Vamos Comer Caetano. Porque era, afinal, de digerir, deglutir, que se tratava, ou não viesse A Mulher do Pau-Brasil do Manifesto da Poesia do Pau-Brasil, de Oswald de Andrade, dono também do Manifesto Antropófago.

Ainda sobre Gabriel Muzak, a quem Adriana chamou "meu amigo, professor, diretor musical": quando ela o encontrou, conterrâneo seu que é, em Lisboa, perguntou-lhe o que fazia ali. "Vim para ver", terá respondido Muzak. As palavras ficaram nela e acabaram por criar O que me cabe, canção que Calcanhotto ali mostrou.

Outra figura que se destacou foi a do "Super-Homem de Portugal", que estava na plateia, para a escutar. "Os erros são por causa dele", brincava Adriana, referindo-se ao pensador Eduardo Lourenço.

O tom que atravessou todo o concerto desta terça-feira, melancólico mas resiliente, se assim se pode dizer, ganhou um rosto também, que de alguma forma o iluminou ou em parte explicou, quando Calcanhotto avisou que evocaria alguém que "representa muitas outras pessoas": "Marielle" E da plateia ouviu-se então um forte: "Presente!", com sotaque brasileiro. Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro assassinada a tiro em março aparecia como um cometa, para que tudo logo continuasse, com canções como MetadeDevolva-me, ou Flor Encarnada, outra canção que Adriana ali mostrava pela primeira vez. Aquela foi o resultado de um exercício que a cantora deu para os seus alunos, um grupo de 20 pessoas bastante heterogéneo, entre pessoas que vêm de Direito, Engenharia Química ou letras. Deveriam escrever uma canção sobre o amor não correspondido, continuando uma tradição que remonta à Grécia Antiga. Esta é o reusltado do seu exercício.

Pelo meio, ainda apareceu Vinicius de Moraes. Adriana foi convidada para ir a Oxford neste ano, e foi sobre o tempo que Vinicius passou lá, no Magdalen College, que ela falou à Universidade, e não sobre o Tropicalismo, como era esperado. E então pegou de novo no violão para cantar Nature Boy, a "canção favorita" de Vinicius no cancioneiro anglo-saxónico.

Mortal Loucura, Inverno, Outra Vez (de Roberto Carlos, ou Caravanas (de Chico Buarques), foram outros dos temas que Adriana levou ao palco do CCB. "O que será que cantam as suas baleias?" ficou a ecoar, forte, com uma presença elétrica, a partir de Ogunté, uma reflexão da cantora sobre os nossos tempos, que se estende do plástico que há no mar até aos barcos no Atlântico em que chegam os refugiados, pois "já não há Alepo".

Depois viria Vambora a espelhar os vinte anos que passaram depois de, pela primeira vez, se ter dado a uma pessoa "meia hora para mudar" de outra.

Um dos momentos fortes do concerto foi já no encore, com Adriana a cantar Tigresa, de Caetano Veloso, pondo peso em cada palavra. E talvez haja aí qualquer coisa dessa sua residência artística, em que Adriana se debruçou sobre os trovadores, os medievais ou Vinicius e Bob Dylan: a sua voz está solta e a servir a palavra. E se por vezes a voz se torna frágil, a palavra, que ela serve, sustenta-a.

O fim coube a Fico Assim Sem Você, de Claudinho e Buchecha, que ficou célebre na voz de Adriana Partimpim, alterego de Calcanhotto para a infância. Mas Adriana não brincava.

No dia 21 A Mulher do Pau-Brasil sobe ao palco do Teatro Micaelense, em Ponta Delgada, e no dia 24 no Coliseu do Porto. Depois seguirá para a Galiza. E voltando uma vez mais a Esquadros, quem a vê arrepia-se ao escutar: "Eu ando pelo mundo / Divertindo gente /
Chorando ao telefone / E vendo doer a fome / Nos meninos que têm fome"

No final do concerto, a plateia estava de pé, o "concerto-tese" de Adriana estava aprovado.

Fonte: Diário de Notícias



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