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MUNDO

24/06/2019

Sessa e a complexa simplicidade de a Grandeza

O músico brasileiro estreou-se a solo no inicio deste mês com Grandeza, um álbum em que menos significa mais, um álbum que “é uma declaração de amor à música brasileira, numa foto fora de foco”.

 

Grandeza é o primeiro álbum a solo de Sessa, nome artístico do brasileiro Sérgio Sayeg, lançado no dia 4 de Junho através da Boiled Records. A sua grandeza encontra-se na maneira honesta e directa como este exprime o seu amor. “Grandeza é para expressar o tamanho do meu amor em cantar com pessoas próximas”. O título refere-se também à dimensão das “influências que fazem este disco”, explicou o músico. “A vontade é elevar este sentimento a um lugar muito alto e, como estamos a falar de algo imaterial, a música é uma forma de estimular essa sensação.”

Sergio apaixonou-se pela música “mais escancaradamente lá pelos 11 ou 12 anos”. Nesta fase mais embrionária assumia-se como fã de música americana, destacando os icónicos The Stooges de Iggy Pop, os MC5 ou Irma Thomas, cantora de soul e blues, contemporânea de Aretha Franklin e Etta James, e dos pioneiros do movimento psicadélico no Brasil, citando os inevitáveis Gilberto Gil e Gal Costa. No entanto, com o passar do tempo, foi “aprofundando” o seu conhecimento pela música brasileira. “Este álbum é uma declaração de amor à música brasileira, numa foto fora de foco, mas também tem escondido a crueza e o minimalismo dessas produções de soul music que me inspiraram muito.”

Apesar de apenas ter lançado agora um disco em nome próprio, Sessa já tem bastante experiência em palcos, sejam brasileiros ou internacionais, uma vez que já tinha feito parte da banda Garotas Suecas e da banda que acompanhava o guitarrista nova-iorquino Yonatan Gat em diversos discos e concertos. Foi nos intervalos do seu atribulado horário que o músico aproveitou para se dedicar ao seu projecto. “O disco foi gravado ao longo de dois anos em diversas sessões e estúdios diferentes (...). Foi um período em que estava constantemente a viajar porque tocava em vários projectos paralelos. Quando tinha tempo livre alugava um quarto para escrever, juntava duas ou três músicas, uma banda e entrava em qualquer estúdio ou sala grande e ficava lá um dia ou dois improvisando os arranjos com a banda. O processo de gravação do disco foi um pouco caótico, sempre com sessões entre um e dois dias e muitos takes ao vivo com todo mundo cantando e tocando na mesma sala gravando em fita.”

Complexa simplicidade

Apesar da complexidade dos temas abordados por Sessa, a sua expressão é traduzida num instrumental minimalista que nos remete para o trabalho de Jobim. “Eu gosto do som um pouco vazio da banda. Acho que arranjar uma canção com baixo-bateria-guitarras-teclados é um pouco perder uma oportunidade de fazer algo diferente. Claro, existem arranjos com esses instrumentos que são absolutamente maravilhosos e devem ser celebrados, mas existe também o lugar-comum. A maior parte da música no mundo aconteceu sem essa instrumentação, eram pessoas a cantar, a bater palmas, a tocar tambores, chocalhos, instrumentos de arco, etc.… então nos meus arranjos tentei aludir um pouco a esse espírito.”

As letras de Sessa transmitem este espírito minimalista, com frases repetidas com linguagem simples e um jogo de rima brincalhão e directo: “Deixa minha boca morar na sua boca / Euforia / Eu faria / Tudo por você.” Quando questionado sobre a intencionalidade deste minimalismo, o brasileiro disse que era “um bocado difícil falar sobre intencionalidade: Acho que a minha intenção foi sempre deixar uma porta aberta para o acaso, os erros e o subconsciente cantarem também.” Para além dos temas relacionados com o amor espiritual, Sessa tem várias músicas dedicadas ao amor físico, no entanto, escritas de um ponto de vista mais puro, bastante longe daquilo que o léxico de determinados cantores brasileiros nos tem habituado.

Deixa a minha boca morar na sua boca / Deixa o meu sexo morar no seu / Deixa a minha mão morar nas suas pernas / E o meu quadril anexo ao seu”, canta em Flor do Real, se bem que citar temas como Infinitamente NuTesão Central, Gata Mágica ou Órgia, teriam sido escolhas igualmente apropriadas.

"Meus amigos são heróis"

O disco foi gravado com a ajuda da banda Música de Selvagem, banda de free jazz de São Paulo, da percussão de Eduardo Camargo e das vozes de Laura Ra, Paloma Mecozzi, Lia Elazari Biserra, Sofia Botelho e Ciça Góes. A cumplicidade e entendimento entre os músicos ajuda a criar este clima intimo e fraternal, criando a imagem de que vivem todos em comunhão. “Meus amigos são heróis / Caídos ou malditos são heróis”, canta na faixa Sangue Bom acompanhado pela batucada suave de uma caixa: “Meus amigos me hidratam / De uma sede muito alta.”

Sessa e os seus companheiros andarão num futuro próximo a apresentar o novo álbum. “Vamos lançar Grandeza ao vivo em São Paulo no dia 27 de Junho no Itaú Cultural, seguido de uma tour nos Estados Unidos e Canadá promovendo o disco. Em breve também sai mais um vídeo para a canção Gata Mágica. Assim seguimos a vida em música.” Quanto a uma visita a Portugal, apesar de existir vontade por parte do músico ainda não existem certezas. “Existem uns papos, quem sabe esse ano ainda não apareço por aí.”

Fonte: Público



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