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Estamos criando crianças incapazes de ficar entediadas? [The Life Curators]

Portugal começou este ano letivo com uma mudança importante: a restrição ao uso de smartphones nas escolas foi ampliada para os alunos do 7.º, 8.º e 9.º anos.

 

A decisão veio depois de uma primeira experiência nos ciclos anteriores. Segundo a avaliação divulgada pelo Governo, as escolas relataram maior socialização entre os alunos e redução da indisciplina.

 

É uma discussão importante. Mas me fez pensar em uma questão um pouco diferente.

 

Estamos criando crianças incapazes de ficar entediadas?

 

Como mãe, reconheço algo que provavelmente muitos pais também reconhecem.

 

Quando nossos filhos dizem que estão entediados, nossa primeira reação muitas vezes é procurar alguma coisa para distraí-los. Em uma fila, em um restaurante, em uma viagem de carro ou em um avião, quase sempre há uma tela, um jogo, um vídeo ou qualquer outro tipo de entretenimento disponível.

 

Sem perceber, fomos eliminando da infância algo que durante gerações foi absolutamente normal: não ter nada para fazer.

 

E talvez estejamos subestimando o que acontece nesses momentos.

 

Quando uma criança não tem imediatamente alguma coisa para fazer, precisa descobrir o que fazer com aquele tempo. É aí que podem surgir a imaginação, a curiosidade e a capacidade de criar o próprio entretenimento.

 

Quando não há um adulto organizando uma atividade nem um algoritmo oferecendo o próximo vídeo, alguma coisa precisa acontecer.

 

A criança inventa. Desenha. Constrói. Procura alguém para brincar. Observa. Faz perguntas. Reclama. Tenta outra coisa.

 

Ou simplesmente aprende que nem todos os minutos da vida precisam ser interessantes.

 

Talvez essa última aprendizagem seja especialmente importante.

 

Porque o mundo que estamos construindo funciona exatamente na direção contrária.

 

Não esperamos pelo próximo episódio. Não esperamos pela comida. Não esperamos pelo táxi. Não esperamos para comprar. Não esperamos nem alguns segundos por uma resposta sem voltar a olhar para o celular.

 

E talvez aqui esteja a parte mais desconfortável dessa discussão.

 

Este artigo pode não ser apenas sobre crianças.

 

Nós, adultos, também desaprendemos a ficar entediados.

 

Quantas vezes esperamos por alguém em um restaurante sem pegar no celular? Quantas vezes entramos em um elevador sem olhar para uma tela? Quantas vezes fazemos uma caminhada sem ouvir nada, tomamos um café sem abrir um aplicativo ou simplesmente passamos alguns minutos sem produzir, consumir ou responder a alguma coisa?

 

Queremos ensinar nossos filhos a usar melhor a tecnologia. Talvez devamos.

 

Mas não sei se basta retirar os smartphones das escolas.

 

Talvez também seja preciso devolver às crianças, e a nós mesmos, algo que fomos eliminando progressivamente das nossas vidas:

 

o direito de não ter nada para fazer.

 

Lara Kloosterboer Westphalen

Founder & CEO

The Life Curators

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