Notícias

You are here:

E se uma nova geração simplesmente não quiser subir na carreira? [The Life Curators]

Durante décadas, uma carreira bem-sucedida tinha uma direção bastante clara: para cima.

 

Entrávamos numa empresa, ganhávamos experiência, éramos promovidos, assumíamos uma equipe, tornávamo-nos diretores e, para alguns, chegava eventualmente o C-level.

 

Cada promoção significava progresso.

 

Mais responsabilidade, mais pessoas, um título melhor, um salário maior.

 

E, de alguma forma, fomos construindo uma ideia de sucesso profissional em que permanecer no mesmo lugar durante demasiado tempo começou a parecer quase uma ausência de ambição.

 

Mas alguma coisa parece estar mudando.

 

Nos últimos meses, uma nova expressão começou a aparecer nas discussões sobre o mercado de trabalho: career minimalism.

 

O termo descreve profissionais que não querem necessariamente deixar de trabalhar, produzir ou desenvolver-se. Também não significa fazer o mínimo possível.

 

Significa algo mais interessante: não querer que a carreira ocupe necessariamente o centro da vida.

 

E isso levanta uma pergunta que talvez muitas empresas ainda não estejam preparadas para responder:

 

E se uma nova geração simplesmente não quiser subir?

 

Talvez não seja falta de ambição

 

É fácil olhar para esse movimento e concluir que estamos diante de uma geração menos ambiciosa.

 

Mas talvez estejamos confundindo duas coisas diferentes.

 

Não querer ser diretor não significa necessariamente não querer ser excelente.

 

Não querer gerir uma equipe de 50 pessoas não significa não querer assumir responsabilidade.

 

Não querer trabalhar 60 horas por semana para chegar mais rapidamente ao próximo cargo não significa falta de compromisso.

 

Talvez alguém queira ser extraordinariamente bom naquilo que faz e continuar fazendo aquilo.

 

Talvez queira ganhar bem, mas não maximizar permanentemente o próprio salário.

 

Talvez queira ter uma carreira interessante e, ao mesmo tempo, jantar com os filhos durante a semana.

 

Talvez queira morar em diferentes países.

 

Cuidar dos pais.

 

Viajar.

 

Ter um hobby levado a sério.

 

Construir um projeto paralelo.

 

Ou simplesmente chegar ao final do dia e ter uma parte da vida que não pertence ao trabalho.

 

Será que isso é falta de ambição?

 

Ou será que estamos diante de pessoas que continuam ambiciosas, mas decidiram distribuir essa ambição por outras áreas da vida?

 

Por que sucesso profissional precisa significar querer o trabalho do seu chefe?

 

Talvez esta seja a parte mais interessante da discussão.

 

Grande parte das nossas organizações foi construída sobre uma premissa: os melhores profissionais querem subir.

 

Por isso, quando alguém tem um excelente desempenho, procuramos promovê-lo.

 

O melhor vendedor torna-se gerente comercial.

 

O melhor técnico torna-se gestor.

 

O melhor especialista começa a liderar uma equipe.

 

O bom gestor torna-se diretor.

 

E assim sucessivamente.

 

Só que existe um problema nessa lógica.

 

Ser extraordinário numa função não significa necessariamente querer, ou saber, desempenhar a função seguinte.

 

Um excelente técnico pode adorar resolver problemas complexos e detestar gerir pessoas.

 

Um vendedor brilhante pode perder justamente aquilo que o tornava excepcional quando passa a maior parte do dia em reuniões, avaliações de desempenho e planejamento de equipe.

 

Um profissional pode querer continuar aprofundando conhecimento, tornando-se cada vez mais valioso e sendo muito bem remunerado, sem desejar um cargo executivo.

 

Ainda assim, em muitas empresas, existem poucas formas de reconhecer crescimento sem transformá-lo em promoção hierárquica.

 

Criamos escadas.

 

Talvez precisemos criar mais caminhos.

 

A geração mudou ou o contrato mudou?

 

Também seria injusto analisar essa mudança sem olhar para aquilo que aconteceu com o próprio mercado de trabalho.

 

Durante boa parte do século XX, a relação entre empresa e funcionário carregava uma promessa implícita.

 

Trabalhe muito.

 

Seja leal.

 

Cresça conosco.

 

E, em troca, haverá alguma forma de estabilidade, progressão e segurança.

 

Esse contrato tornou-se muito menos previsível.

 

Profissionais viram empresas fazer reestruturações, reduzir equipes e eliminar posições independentemente do desempenho individual. Viram pais dedicarem décadas à mesma organização e, ainda assim, descobrirem que estabilidade nunca foi uma garantia.

 

Ao mesmo tempo, novas gerações entraram no mercado assistindo de perto aos custos de determinadas escolhas profissionais.

 

Viram burnout.

 

Viram pais ausentes.

 

Viram pessoas chegarem ao topo e descobrirem que o cargo seguinte trazia mais dinheiro, mas também mais pressão, responsabilidade e menos tempo.

 

Talvez seja simplista concluir que essas pessoas deixaram de querer trabalhar.

 

Talvez estejam apenas fazendo uma conta diferente.

 

Isso cria um problema real para as empresas.

 

Existe, porém, um outro lado dessa conversa.

 

Organizações precisam de pessoas que queiram assumir responsabilidade.

 

Precisam de gestores.

 

Precisam de diretores.

 

Precisam de CEOs.

 

Precisam de pessoas dispostas a tomar decisões difíceis, liderar equipes, responder por resultados e ocupar posições que inevitavelmente trazem mais pressão.

 

Uma sociedade em que ninguém queira liderar também teria um problema.

 

Por isso, o desafio para as empresas não deveria ser simplesmente aceitar que ninguém mais quer crescer.

 

Deveria ser entender que crescimento profissional talvez já não possa ter uma única definição.

 

Uma pessoa pode crescer verticalmente e tornar-se líder.

 

Outra pode crescer em profundidade e tornar-se uma referência técnica.

 

Outra pode assumir projetos cada vez mais complexos sem gerir uma equipe.

 

Outra pode querer alternar períodos de enorme intensidade profissional com momentos em que outras dimensões da vida recebem prioridade.

 

O desafio é construir organizações capazes de acomodar diferentes formas de ambição sem tratar uma delas como superior às outras.

 

Precisamos falar também sobre dinheiro.

 

Existe ainda uma questão pouco romântica nessa conversa.

 

É muito mais fácil escolher uma carreira minimalista quando existe segurança financeira suficiente para fazer essa escolha.

 

Nem todas as pessoas podem decidir trabalhar menos.

 

Nem todas podem recusar uma promoção.

 

Nem todas podem escolher significado, flexibilidade ou qualidade de vida em detrimento de um salário maior.

 

Para milhões de trabalhadores, crescimento profissional continua sendo uma necessidade econômica antes de ser uma questão de realização pessoal.

 

Por isso, career minimalism não deveria tornar-se mais uma tendência bonita de redes sociais apresentada como solução universal.

 

É uma possibilidade.

 

E possibilidades dependem de contexto.

 

Mas o fato de algumas pessoas estarem começando a fazer essa escolha voluntariamente diz alguma coisa sobre a relação que construímos com o trabalho.

 

Talvez a ambição não tenha desaparecido

 

Tenho pensado bastante sobre isso também como mãe.

 

Quando falamos com os nossos filhos sobre o futuro, é curioso perceber como muitas das perguntas que fazemos carregam as nossas próprias definições de sucesso.

 

O que você quer ser?

 

Que curso vai fazer?

 

Onde quer trabalhar?

 

Até onde quer chegar?

 

Queremos que tenham oportunidades. Que sejam independentes. Que encontrem algo em que sejam bons. Naturalmente, queremos que tenham sucesso.

 

Mas talvez precisemos ter algum cuidado para não entregar junto uma definição pronta daquilo que sucesso significa.

 

Porque talvez um dos nossos filhos queira construir uma grande empresa.

 

Talvez outro queira ser o melhor profissional possível numa determinada área e nunca gerir ninguém.

 

Talvez queira ganhar muito dinheiro.

 

Talvez queira ganhar o suficiente.

 

Talvez queira uma carreira internacional.

 

Talvez queira permanecer perto da família.

 

Nenhuma dessas escolhas, isoladamente, nos diz quanta ambição existe naquela pessoa.

 

Diz apenas onde ela decidiu colocá-la.

 

Talvez precisemos de uma nova pergunta!

 

Durante muito tempo, perguntamos às pessoas:

 

“Onde você quer estar profissionalmente daqui a cinco anos?”

 

E quase sempre esperamos uma resposta que indique movimento.

 

Um cargo maior.

 

Mais responsabilidade.

 

Mais dinheiro.

 

Mais poder.

 

Talvez exista uma pergunta mais interessante:

 

“Que vida você quer ter daqui a cinco anos e que papel você quer que o trabalho ocupe nela?”

 

Para algumas pessoas, o trabalho continuará no centro.

 

E ainda bem.

 

Precisamos de empreendedores obcecados por construir.

 

De pesquisadores que dedicam décadas a um problema.

 

De executivos que querem chegar ao topo.

 

De profissionais extraordinariamente ambiciosos.

 

Mas talvez também precisemos aceitar que uma pessoa pode fazer um excelente trabalho sem querer que o trabalho seja a sua maior realização.

 

Isso não significa necessariamente que a ambição desapareceu.

 

Talvez ela apenas tenha mudado de lugar.

 

Lara Kloosterboer Westphalen

Founder & CEO

The Life Curators

Notícias relacionadas