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Quando foi que aprender um ofício passou a valer menos do que ter um diploma? [The Life Curators]

É uma conversa que aparece com alguma frequência aqui em casa, sobretudo quando falo sobre futuro com o meu filho mais velho.


Universidade.


Que curso fazer? Onde estudar? O que poderá abrir mais portas? Que formação fará sentido daqui a alguns anos?
São perguntas naturais para quem tem filhos se aproximando da idade em que começa a precisar fazer escolhas. E confesso que, como mãe, durante muito tempo também parti quase automaticamente de uma premissa: depois da escola, vem a universidade.


Não necessariamente porque exista uma profissão específica que exija isso.


Mas porque foi assim que aprendemos a pensar.


Estudar, entrar numa boa universidade, obter um diploma e começar uma carreira tornou-se, para muitas famílias, a sequência natural de uma vida profissional bem construída.


Por isso me chamou a atenção uma declaração recente de Mary Barra, CEO da General Motors.


Em entrevista à Fortune, Barra disse acreditar que existe um “problema social” na forma como tratamos as profissões técnicas. Para ela, criamos uma percepção de que carreiras que envolvem trabalhar com as mãos, construir, reparar, fabricar ou manter alguma coisa são menos desejáveis do que aquelas tradicionalmente associadas a um diploma universitário.


Não é uma reflexão apenas teórica para a General Motors.


A empresa afirma ter investido quase US$ 200 milhões, apenas no último ano, na modernização e formação para profissões técnicas. Barra também tem chamado a atenção para a falta de eletricistas, técnicos automotivos e outros profissionais especializados.


E talvez a parte mais interessante seja que a própria história dela torna difícil descartar esse argumento como uma simples defesa corporativa.


O pai de Mary Barra trabalhou durante 39 anos na GM como die maker, uma profissão técnica ligada à fabricação de ferramentas e moldes industriais. Ela própria começou na empresa como estudante, trabalhando numa fábrica, antes de se formar em engenharia e construir a carreira que a levaria ao cargo de CEO. Recentemente, ao falar sobre a necessidade de profissionais técnicos, Barra voltou a recordar a carreira do pai e disse acreditar que a Europa historicamente demonstra mais respeito por esse tipo de profissão.


A observação merece atenção.


Porque talvez o problema não seja apenas econômico.


Talvez seja cultural.


“Ele só fez um curso técnico”

 

Existe uma linguagem que usamos sem perceber.


“Ele só fez um curso técnico.”


“Ela não chegou a fazer faculdade.”


“Ele acabou trabalhando como eletricista.”


“Ela preferiu aprender uma profissão.”


Há quase sempre uma hierarquia escondida nessas frases.


De um lado está o caminho considerado ideal: universidade, diploma, profissão de escritório.


Do outro estão caminhos que frequentemente descrevemos como alternativas.


Como se aprender a construir, instalar, reparar, produzir ou operar alguma coisa fosse intelectualmente menos valioso do que aprender a analisar, administrar ou aconselhar.


E isso começa muito cedo.


Quando uma criança demonstra facilidade acadêmica, dificilmente alguém sugere que ela considere tornar-se eletricista.


Ou marceneiro.


Ou técnico especializado.


Ou mecânico.


Ou cozinheiro.


Ou qualquer outra profissão que combine conhecimento técnico com habilidade prática.


Quanto melhor o aluno, maior parece ser a expectativa de que ele siga para a universidade.


Talvez devêssemos perguntar por quê.


O mercado está mandando um sinal diferente.


O problema é que a economia não funciona segundo a hierarquia de prestígio que construímos.


Ela precisa de médicos e eletricistas.


Engenheiros e técnicos.


Advogados e mecânicos.


Pesquisadores e profissionais de manutenção.


Arquitetos e profissionais capazes de transformar aquilo que foi desenhado em algo que realmente exista.


A General Motors não é a única empresa preocupada com isso.


Barra fala de uma procura crescente por profissionais técnicos e, particularmente, por eletricistas. A GM afirma ter investido mais de US$ 250 milhões em formação profissional nos últimos cinco anos e mantém programas de aprendizagem e formação dentro da própria empresa.


A discussão também não se limita aos Estados Unidos.


A OCDE vem defendendo sistemas educacionais em que seja mais fácil transitar entre formação profissional, educação acadêmica e mercado de trabalho, em vez de tratar esses caminhos como universos separados.
Os dados ajudam a explicar por quê.


Entre jovens de 25 a 34 anos nos países da OCDE, aqueles com formação profissional de nível secundário apresentam taxa de emprego de 83,2%. Entre jovens com formação secundária geral equivalente, mas sem a componente profissional, a taxa é de 73,8%.


Isso não significa que uma formação técnica seja sempre melhor.


Significa algo mais simples: ela não deveria ser automaticamente considerada pior.


E a universidade?


Aqui existe um risco de substituir um preconceito por outro.


Não acredito que estejamos assistindo ao fim da universidade.


Muito menos que devamos começar a desencorajar jovens de cursá-la.


A universidade continua sendo indispensável para inúmeras profissões. Continua sendo um espaço extraordinário para adquirir conhecimento, desenvolver pensamento crítico, criar relações e descobrir interesses que muitas vezes nem sabíamos que tínhamos.


E os próprios dados da OCDE continuam mostrando uma associação importante entre ensino superior e melhores resultados de emprego. Adultos com pelo menos uma graduação apresentam taxas de emprego significativamente superiores às daqueles que não concluíram o ensino secundário.


A discussão, portanto, não deveria ser: universidade ou formação profissional?


Talvez devesse ser: por que decidimos que uma delas representa sucesso e a outra precisa ser justificada?


Talvez estejamos começando pela pergunta errada.


Volto então às conversas aqui de casa.


Quando pensamos no futuro dos nossos filhos, existe uma tentação enorme de procurar segurança.


Qual é a melhor universidade?


Qual curso oferece mais oportunidades?


Qual profissão terá mais futuro?


São perguntas legítimas.


Mas talvez exista uma anterior a todas elas:


O que você gostaria de saber fazer muito bem?


Não apenas que título gostaria de ter.


Não apenas em que empresa gostaria de trabalhar.


Não apenas quanto gostaria de ganhar.


O que gostaria realmente de saber fazer?


Pode ser projetar uma ponte.


Pode ser consertar um motor.


Pode ser programar.


Pode ser cozinhar.


Pode ser cuidar de pessoas.


Pode ser construir móveis.


Pode ser administrar empresas.


Pode ser instalar sistemas elétricos complexos.


Pode ser escrever.


Pode ser operar equipamentos que exigem anos de especialização.


Algumas dessas respostas exigirão universidade.


Outras exigirão formação técnica.


Outras combinarão as duas.


E algumas talvez levem a percursos profissionais que hoje nem conseguimos prever.


Talvez o nosso papel, como pais, educadores e empresários, não seja escolher qual desses caminhos tem mais prestígio.


Seja garantir que existam bons caminhos para todos eles.


Saber fazer também é conhecimento.


Durante décadas, aumentar o acesso ao ensino superior foi uma enorme conquista social.


Não deveríamos voltar atrás.


Mas democratizar a universidade não deveria significar desvalorizar todas as formas de conhecimento que acontecem fora dela.


Existe conhecimento numa sala de aula.


Existe conhecimento numa fábrica.


Existe conhecimento num laboratório.


Existe conhecimento numa oficina.


Existe conhecimento num escritório.


E existe uma enorme sofisticação em fazer excepcionalmente bem algo que levou anos para aprender.


Talvez tenhamos passado tanto tempo tentando aumentar o número de pessoas com diploma que esquecemos de perguntar de quais competências a economia realmente precisa.


E talvez também tenhamos esquecido algo mais pessoal.


Nossos filhos não precisam necessariamente reproduzir a ideia de sucesso que funcionou para a nossa geração.


Durante muito tempo, perguntamos aos jovens:


“Que curso você vai fazer?”


Talvez valha a pena começar um pouco antes:


“O que você quer saber fazer?”


A resposta pode levá-los à universidade.


Pode levá-los a uma formação técnica.


Pode levá-los a ambos.


O importante é que sejamos capazes de olhar para esses caminhos com o mesmo respeito.


Porque um diploma é uma forma de qualificação.


Não deveria ser a nossa única definição de sucesso.

 

Lara Kloosterboer Westphalen
Founder & CEO
The Life Curators

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